Série: O direito de ser mulher

Cida: a dona dos orgânicos

Publicado: 13/03/19 • 17h43
Atualizado em: 26/03/19 • 16h22

    Sou casada e meu marido me ajuda a tocar a chácara. Ele fica trabalhando e eu corro atrás de tudo, de comprar e vender. Trabalho o tempo todo, de segunda a segunda. Desde que compramos da chácara, tínhamos que sobreviver dali, plantando tudo sem agrotóxicos. Há dez anos a gente sobrevive disso. A chácara tem um alqueire e uma quadra.

    Às vezes alguém liga e pergunta ‘cadê o dono dos orgânicos?’. Digo que sou eu mesma e eles pedem para falar com o dono. Falo que eu sou a esposa do dono e dona e que podem falar comigo, que eu resolvo qualquer coisa. Sou dona também. Falo ‘se quiser falar com ele venha aqui, porque ele está na roça e não vou chamar ele’. Aí dizem ‘então tá bom, vou falar com a senhora mesmo’.

    Antigamente, era mais difícil ver uma mulher tomando conta de tudo. Hoje está tudo mais fácil, as mulheres têm mais espaço. Sou eu quem resolvo tudo. Muitos ainda falam ‘ué, cadê seu marido?’ E eu digo que ele tem que trabalhar e me manda ir. Outros perguntam ‘mas seu marido não trabalha?’ Digo que sim, por isso ele está na chácara. Alguns ainda se surpreendem, perguntam onde está meu marido para fechar o negócio. Se falarem com ele, ele vai mandar falar comigo, sou eu que resolvo. Isso ainda assusta alguns homens. 
 
   Antigamente todo mundo vivia bem sem médicos, sem remédios, sem nada. Não tinha nada disso. Depois vimos quantas doenças surgiram, precisa de médico e remédio todo dia é por causa de tanto veneno. Nós não colocamos veneno em nada pela saúde dos outros e a nossa.
O selo dos orgânicos faz três anos que a gente tem. Meus orgânicos são folhagens: alface, almeirão, rúcula, chicória, salsinha, cebolinha, couve. Tenho um pedaço que planto milho e mandioca, sem agrotóxicos, mas ainda não tem a certificação. Um pouco mais da metade da chácara é pasto, tem umas vaquinhas lá que dão leite e faço queijos. 

    Algumas pessoas de Londrina vêm buscar, mas não é fixo, se não eu teria que produzir em bastante quantidade, mas já estamos velhos e não aguentamos muita coisa. Meu forte são as escolas. Até ano passado, entregava para todas as escolas municipais e estaduais. Mas, como ficou muita coisa, esse ano estou só com as municipais. 

    Nasci no estado de São Paulo, em Bernardino de Campos. Morei há 40 anos atrás no km 10, fui embora e há dez anos voltei para Rolândia. Meu marido se chama Celso de Lucca e tem 66 anos. Tenho um casal de filhos: Márcia Regina de Lucca tem 39 anos e é casada e Wagner de Lucca, de 40 anos é divorciado, mora comigo e tem meu neto, o Lucas de Lucca, com 14 anos que mora comigo também. A Márcia mora agora em Sabáudia, ela estava em Londres e também fiquei lá por seis anos, fazendo dinheiro para a chácara. No final de 2009 saímos de lá e já vim para Rolândia comprar a chácara.

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