Bate-papo sério - por Marcos Fernandes

Para além do pedagógico em sala de aula

Publicado: 23/04/19 • 14h06
Atualizado em: 23/05/19 • 06h20

    Em algum momento das nossas vidas nos deparamos com situações complexas e de difíceis resoluções. Às vezes, ocorrem eventos chatos e inconvenientes mas que, de modo geral, não vão desestruturar nossas vidas. Já outras vezes ocorrem acontecimentos que, de fato, abalam nossas certezas e nos fazem pensar se precisamos modificar os rumos que estamos tomando...

    Isso vale para as pessoas em geral, e mais ainda para uma categoria de indivíduos que buscam promover exatamente uma parte importante do processo de humanização de toda a sociedade: os professores e as professoras.

    Todos nós nascemos seres humanos, como seres biológicos. Mas precisamos também nos tornar humanos, como seres afetivos, sociais, econômicos, políticos, culturais, etc., ou seja, precisamos vir a ser seres humanos, no sentido de sermos plenos, completos, e aí entra o processo educativo. E pra que isso? Para não praticarmos desumanidades. Para não cometermos homicídios, não destruirmos o nosso mundo e nossos semelhantes, para que não sejamos corruptos, para que façamos as melhores escolhas e as mais responsáveis, para praticarmos a justiça... Em suma, para que façamos o bem. 

    Nesse processo educativo várias instituições atuam. As instituições escolares são meios privilegiados para que esse processo de humanização ocorra. Na relação entre professores(as) e alunos(as), boa parte da humanização das sociedades acontece. E é exatamente essa relação entre docentes e discentes, ou seja, entre os professores(as) e alunos(as), tem apresentado algumas situações de complexa e de difícil resolução. Às vezes, nessa relação ocorrem situações chatas ou até mesmo acontecimentos que levam os indivíduos a repensar a sua existência.

    Sobre os problemas específicos dessa relação entre professor(as) e alunos(as), eu poderia dedicar uma edição inteira desse jornal só para relatar os casos que aconteceram apenas comigo ao longo dos meus mais de 15 anos de docência. E tem cada história! Mas não é esse meu objetivo agora. Talvez isso seja interessante para um projeto futuro: resgatar as narrativas e as histórias orais de docentes e discentes e suas memórias no que se refere à essa temática. Mas aqui eu gostaria de propor uma reflexão diferente.

    Gostaria de convidar você, que está lendo, a entender que o processo educacional é um compromisso, é uma aposta para o futuro, e que cada criança, adolescente e jovem faz parte desse compromisso com o futuro, pois ele pode mudar tudo pra melhor ou pra pior. Cada família precisa ter o máximo zelo, cuidado, carinho e amor por suas crianças, adolescentes e jovens. Precisa cuidar e proteger os mesmos. Precisa orientar no caminho moral correto, de acordo com sua própria concepção de mundo. Isso é fundamental e indiscutível. 

    As instituições escolares, assim como outras instituições, também participam dessa aposta no futuro. Nas escolas e colégios, os alunos são apresentados aos conhecimentos disciplinares. Esses conhecimentos vão ajudá-los no exercício de suas cidadanias e nos seus processos de se tornarem seres humanos melhores, conforme descrito acima.

    Mas agora é que vem o “X” da questão. Em qualquer relacionamento humano, nem tudo são rosas. A relação entre pais e filhos, por exemplo, quase sempre é perpassada por momentos de correções e broncas quando existe a necessidade de correção. Meus filhos, por exemplo, de vez em quando precisam tomar uma bronca quando demonstram comportamentos egoístas, ou quando não cumprem com as regras e acordos estabelecidos, por exemplo. Isso acontece porque eu os amo muito e quero que eles sejam pessoas de bem. É isso que as famílias fazem. As famílias ensinam o caminho correto. 

    Mas eu também sou professor. E volta e meia eu também preciso corrigir algum comportamento inadequado em sala de aula. Se ordeno que um aluno devolva o material que foi pego por ele sem autorização de outro aluno, se separo um desentendimento ou se exijo que uma aluna que ofendeu uma outra se desculpe (e nós docentes fazemos tudo isso) é em virtude daquela aposta no futuro. Se isso é feito, o objetivo maior é que as pessoas envolvidas no processo educativo nas instituições de ensino saiam desse processo melhores.

    Acredito que é pensando nesse objetivo maior que a relação entre família e instituições de ensino devam sempre se pautar. Infelizmente existe uma tendência nos dias de hoje, por parte de algumas famílias, de minimizar ou simplesmente ignorar qualquer observação vinda das escolas e colégios. Inversamente, também existe uma tendência de alguns docentes de negligenciar ou minimizar a importância da influência das famílias.  Obviamente não existem indivíduos perfeitos, nem professores(as), nem alunos(as), nem pais ou mães... Todos estão em processo de aprendizagem. Mas se queremos atuar em prol de nossas futuras gerações, se queremos uma sociedade mais justa, mais solidária, mais humana no sentido pleno, é necessário superar os discursos que separam as instâncias de formação humana. Precisamos nos dar as mãos em favor de nosso objetivo em comum. Que Deus nos abençoe! 

Marcos Fernandes é professor de História

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