Memórias do Padre Zé

O religioso está em Rolândia há mais de meio século e testemunhou muitos fatos históricos e de várias áreas no município. É sobre isso que ele irá falar todas as semanas.

Publicado: 26/04/21 • 10h51

    A partir desta semana, iremos saber mais um pouco da História e das histórias de Rolândia através do monsenhor Joseph Bernard Agius, ou do Padre Zé, como é mais conhecido. O religioso está em Rolândia há mais de meio século e testemunhou muitos fatos históricos e de várias áreas no município. É sobre isso que ele irá falar todas as semanas.


    Em uma pequena aldeia chamada Munxar, na ilha de Gozo, arquipélago de Malta, que se ergue sobre uma pequena colina cercada por vales verdejantes e que se estende até a fascinante praia de Xlendi, onde no ano 1600 tinha sido construída uma Torre de Vigia pelos cavaleiros da Soberana Ordem Militar de São João de Malta, eu nasci aos 02 de outubro de 1941 numa simples casa de pedra, cuja metade servia de estábulo para animais, como era costume naquele tempo. 

    Meus pais Spiridione e Maria Rosa, ambos pessoas simples e devotados a Deus, me deram os nomes de Joseph, Bernard, Francis e Tarcísio* (um costume maltês de dar mais nomes no batizado) e me educaram nos princípios religiosos da fé católica. Não podia ser diferente, uma vez que a Ilha de Malta tinha sido evangelizada pelo Apóstolo Paulo quando ali sofreu o naufrágio no ano 60 da era cristã, de acordo com livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 28. Malta conservou a fé pregada por Paulo.

    Como Malta, naquele tempo, era governada pela Inglaterra desde 1798, minha primeira infância transcorreu sob o signo do medo dos constantes bombardeios aéreos realizados pelas incursões dos aviões da Alemanha e da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, travada entre 1939 e 1945. Os alemães faziam voos rasantes e metralhavam prédios e pessoas enquanto que os italianos voavam alto e não jogavam bombas por serem vizinhos e amigos dos malteses. 

    Eu me lembro das tantas vezes que a sirene tocava, a qualquer momento do dia ou da noite, para avisar a população que um ataque aéreo se aproximava... e nós correndo às pressas para esconderijos subterrâneos cavados na rocha para evitar sermos mortos ou mutilados.  Eu me lembro também que faltava alimentos na Ilha e os pequenos agricultores enterravam sacas de trigo e de aveia em seus campos para não serem saqueados pelo governo e de quantos navios tinham sido afundados no mar Mediterrâneo pela ação sinistra do inimigo. 

    Quando já estava com 5 anos de idade, em setembro de 1945, ouvimos, alegres, todos os sinos das igrejas repicando solenemente e anunciando que, finalmente, a guerra havia terminado.

* Nota do editor: no momento do registro civil, os nomes Francis e Tarcísio “caíram” e foi acrescentado o Agius (sobrenome paterno) ao nome do futuro religioso rolandense.

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