Cidadão com três nacionalidades

Um pouco da História e das histórias de Rolândia através do monsenhor Joseph Bernard Agius, ou do Padre Zé, como é mais conhecido. O religioso está em Rolândia há mais de meio século e testemunhou muitos fatos históricos e de várias áreas no município.

Publicado: 06/05/21 • 09h33

    Éramos em cinco irmãos: eu, o mais velho, e depois de mim vieram mais quatro com intervalo de um ano e meio ou dois anos entre um e outro: Rita, Adeodato, Maria e Felix. Meus pais se dedicavam ao trabalho da lavoura, plantando produtos sazonais e criando alguns animais para o consumo da casa: quatro cabras e quatro ovelhas, uma vaca, alguns coelhos e algumas galinhas. Era uma vida pacata e dedicada à família.

    Com a Segunda Guerra Mundial, porém, Malta passou por muitas dificuldades: a economia enfraqueceu e o emprego ficou difícil. Já antes do início da guerra, o governo inglês tinha aberto frentes de trabalho nos países das colônias: Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Assim, em 1936, meus dois tios, José e Antônio, irmãos da minha mãe, ambos jovens, emigraram para a Austrália em busca de uma vida melhor. Meu pai, que era amigo do tio Antônio, pretendia emigrar junto, mas, como já namorava minha mãe, ficou para se casar primeiro e, mais tarde, viajar com a esposa para a Austrália. 

    Estourou a guerra em 1939, a comunicação marítima entre a Europa e Austrália ficou interrompida e os planos de meus pais caíram por terra. Casaram-se em 1940 e ficaram esperando o término da guerra para decidir o que deveriam fazer. 

    Eu me lembro bem que eu já estava com cinco anos de idade quando chegou a primeira carta depois da guerra, do tio Antônio, para dizer aos seus pais, meus avós, que ele estava vivo. Quantas lágrimas de alegria! Na segunda carta, tio Antônio convidava meu pai: “Spir, venha pra cá, aqui tem trabalho e carne à vontade”. A intenção dele era emigrar para a Austrália: primeiro sozinho e depois de dois anos voltar para levar a família consigo. Ele sabia que eu já tinha a intenção de ser padre e me dizia: “Filho, se eu não for à Austrália, como é que pode ser padre?  Aqui eu não ganho para manter você no seminário”. 

    Ele partiu em l949 e voltou para levar a família quatro anos mais tarde. Mas eu, já com 12 anos, resisti de emigrar porque queria entrar no seminário... Como ele queria que todos fôssemos para lá e eu atrapalhei os planos, então ele aproveitou a ida da irmã dele, a tia Rosa, cujo marido já estava na Austrália com os filhos mais velhos, para embarcar sem a família dele. Isto aconteceu em 1954; eu chorei muito porque me sentia culpado!

    Em 1957, com 16 anos, prestei vestibular para a Universidade de Oxford (Inglaterra) e, tendo adquirido o Certificado Geral da Educação (General Certificate of Education), iniciei, em 1958, o curso de Filosofia no Seminário de Gozo, em Malta. 

    Em 1961, vim ao Brasil. Em 1963, meus dois irmãos foram se juntar ao nosso pai na Austrália e, em l966, ele voltou para casa definitivamente. Sofri muito com esta separação causada pela emigração, e meu sentimento é que eu tinha separado a família entre três países: Malta, Austrália, Brasil. Por isso, me considero maltês por nascimento, australiano por afeição e brasileiro por opção.

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